Por que usar opções? Entenda como funcionam o hedge e a alavancagem

Por que usar opções: alavancagem para potencializar os movimentos do investimento
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Você já sabe o que são opções. Agora é hora de entender por que usar opções.

Nos artigos anteriores, conhecemos a Call, a Put, o strike, o prêmio e o vencimento. Também vimos que quem compra uma opção adquire um direito, enquanto quem lança uma opção assume uma obrigação.

Mas existe uma pergunta inevitável: afinal, para que servem as opções?

Conhecer a estrutura de um contrato é importante.

Porém, entender sua finalidade é ainda mais importante.

As opções não foram criadas apenas para permitir que investidores tentem ganhar dinheiro com a alta ou com a queda de uma ação.

Elas podem desempenhar funções diferentes dentro de uma estratégia de investimento.

Entre essas funções, duas merecem atenção especial: proteção, por meio do hedge; e alavancagem, por meio da possibilidade de controlar uma exposição maior utilizando uma quantidade menor de capital.

São objetivos completamente diferentes.

No primeiro caso, o investidor está tentando reduzir ou administrar um risco.

No segundo, está tentando ampliar sua exposição e potencializar o resultado sobre o capital empregado.

E existe uma característica que torna essa segunda possibilidade especialmente perigosa: a alavancagem pode ampliar tanto os ganhos quanto as perdas.

Por isso, antes de enxergar as opções como uma oportunidade para multiplicar resultados, precisamos entender por que elas também podem ser utilizadas como instrumentos de proteção.

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Opções são ferramentas, não objetivos

Opções são ferramentas que podem ser usadas em diferentes estratégias de investimento
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Talvez esta seja a primeira ideia que precisamos guardar.

Uma opção não é, por si só, uma estratégia de investimento.

Ela é uma ferramenta.

E, como qualquer ferramenta, sua utilidade depende da maneira como é utilizada.

Uma mesma opção pode fazer parte de uma estratégia de proteção, de uma operação especulativa ou de uma estrutura mais sofisticada envolvendo diferentes contratos.

É por isso que a pergunta:

“Qual opção devo comprar?”

Normalmente deveria ser precedida por outra:

“O que estou tentando fazer?”

Se o objetivo é proteger uma posição existente, a lógica será uma.

Já se o objetivo é buscar exposição a uma possível alta, será outra.

Porém, se o objetivo é assumir uma exposição maior com menos capital, teremos outra situação.

E se o objetivo for gerar renda por meio do lançamento de opções, teremos ainda outra estrutura.

Portanto, antes de falar em operações, precisamos entender qual problema as opções podem ajudar a resolver.

Duas utilizações que precisamos compreender

Neste artigo, vamos concentrar nossa atenção em duas das utilizações mais importantes das opções.

A primeira é o hedge.

Hedge significa proteção.

É a utilização de uma estratégia destinada a reduzir o impacto de um movimento adverso de preço sobre uma posição ou carteira.

Imagine, por exemplo, que você possua ações e esteja preocupado com uma possível queda.

Em determinadas circunstâncias, uma Put pode ser utilizada para criar uma espécie de proteção para essa posição.

Você continua exposto ao ativo, mas passa a possuir também um direito que pode ganhar valor caso o preço caia.

A segunda utilização é a alavancagem.

Nesse caso, a lógica é praticamente oposta.

Em vez de tentar reduzir uma exposição, o investidor utiliza uma quantidade relativamente pequena de capital para obter uma exposição potencialmente muito maior ao movimento de determinado ativo.

Isso pode produzir resultados percentuais expressivos.

Mas também pode fazer com que uma parcela significativa — ou até a totalidade — do capital utilizado na compra da opção seja perdida.

Portanto:

Hedge procura administrar risco.

Alavancagem procura ampliar exposição.

E compreender essa diferença é fundamental.

Hedge: quando a opção funciona como proteção

Hedge com opções como estratégia de proteção contra movimentos desfavoráveis do mercado
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

A palavra hedge vem do inglês e pode ser traduzida, de maneira geral, como proteção.

No mercado financeiro, o conceito está relacionado à utilização de estratégias destinadas a reduzir os efeitos de movimentos desfavoráveis dos preços.

Uma maneira simples de compreender a ideia é imaginar um seguro.

Quando contratamos um seguro para um automóvel, pagamos por uma proteção.

Esperamos não precisar utilizá-la.

Se nenhum acidente acontecer, o seguro terá cumprido sua função mesmo sem ser acionado.

Se um acidente acontecer, entretanto, a cobertura poderá reduzir o impacto financeiro do evento.

Uma estratégia de hedge com opções possui uma lógica semelhante.

O investidor aceita pagar um determinado custo — o prêmio — para adquirir uma proteção contra determinado cenário adverso.

No caso das ações, uma das formas mais conhecidas de proteção envolve a compra de uma Put.

Um exemplo simples de hedge com Put

Imagine que um investidor possua ações de uma empresa negociadas atualmente a R$ 60,00.

Ele acredita no potencial de longo prazo daquela empresa.

Por isso, não deseja vender suas ações.

Ao mesmo tempo, está preocupado com a possibilidade de uma queda significativa no curto prazo.

Uma alternativa seria comprar uma Put.

Suponha que essa Put tenha:

  • Strike: R$ 55,00
  • Prêmio: R$ 2,00 por ação

O investidor, portanto, paga R$ 2,00 por ação para adquirir o direito de vender pelo strike de R$ 55,00, nas condições estabelecidas pelo contrato.

Agora imagine que o mercado sofra uma forte queda e a ação passe de R$ 60,00 para R$ 45,00.

Sem qualquer proteção, a perda seria de:

R$ 60,00 − R$ 45,00 = R$ 15,00 por ação.

Com a Put, entretanto, o investidor possui o direito de vender por R$ 55,00.

A diferença entre o preço de compra da ação e o strike é: R$ 60,00 − R$ 55,00 = R$ 5,00.

Somando o prêmio pago pela proteção: R$ 5,00 + R$ 2,00 = R$ 7,00 por ação.

Assim, nesse exemplo simplificado, a perda econômica da posição fica limitada a aproximadamente R$ 7,00 por ação, desconsiderando custos e demais efeitos da operação.

Perceba o que aconteceu.

A ação caiu R$ 15,00.

Mas a Put ganhou valor justamente porque a ação caiu.

É essa relação inversa que permite que a opção seja utilizada como instrumento de proteção.

O preço da proteção é o prêmio

Existe, entretanto, uma informação que não pode ser esquecida.

Proteção tem custo.

No exemplo anterior, o investidor pagou R$ 2,00 por ação pela Put.

Se a queda não acontecer, esse valor não deixa de ter sido pago.

Imagine que, em vez de cair para R$ 45,00, a ação suba para R$ 70,00.

Nesse cenário, a Put não será exercida.

Afinal, não faria sentido vender por R$ 55,00 algo que pode ser vendido no mercado por R$ 70,00.

O investidor continua com suas ações e participa da valorização.

Mas o prêmio de R$ 2,00 pago pela proteção representa um custo da estratégia.

E isso não é necessariamente um problema.

A função do hedge não é obrigatoriamente produzir lucro.

Sua função é reduzir o impacto de um cenário adverso.

É exatamente como acontece com um seguro.

Você paga para estar protegido.

E espera nunca precisar utilizar a proteção.

Hedge não significa eliminar completamente o risco

Outro ponto merece atenção.

Comprar uma Put não significa que o investidor tenha eliminado todos os riscos da sua posição.

Existem diferentes strikes, prêmios e vencimentos.

Uma Put pode proteger apenas a partir de determinado nível de preço.

Além disso, existe o custo da proteção.

Por isso, o hedge deve ser entendido como uma ferramenta de gerenciamento de risco, e não como uma garantia de que o investidor jamais perderá dinheiro.

Essa distinção será fundamental quando avançarmos no estudo de estratégias.

Proteger não significa deixar de correr riscos

Na primeira parte deste artigo, vimos que as opções podem cumprir funções muito diferentes.

Uma delas é a proteção, conhecida no mercado como hedge.

A ideia é relativamente simples: o investidor possui uma posição que pode sofrer com determinado movimento do mercado e utiliza uma segunda posição para reduzir o impacto desse movimento.

Mas existe uma diferença importante entre reduzir um risco e eliminar um risco.

O hedge não transforma um investimento em uma posição sem risco.

Ele procura fazer com que um determinado cenário adverso tenha um impacto menor sobre o patrimônio.

Essa distinção é fundamental.

Por que alguém precisaria de proteção?

Imagine um investidor que possui uma quantidade significativa de ações de uma determinada empresa.

Ele acredita naquela empresa.

Pretende continuar com as ações em sua carteira.

Não deseja vendê-las simplesmente porque existe a possibilidade de uma queda no curto prazo.

Mas sabe que o mercado é imprevisível.

Uma notícia inesperada pode provocar uma queda de 10%, 15% ou até mais em poucos pregões.

O investidor está diante de um dilema:

vender as ações para evitar a queda ou permanecer investido e aceitar integralmente o risco?

O hedge oferece uma terceira possibilidade.

Ele pode continuar com a posição e, ao mesmo tempo, utilizar outro instrumento para tentar reduzir o impacto de uma queda.

No mercado de opções, a Put é uma das ferramentas que podem cumprir essa função.

A Put como uma espécie de seguro

Voltemos ao exemplo da parte anterior.

A ação está cotada a R$ 60,00.

O investidor possui as ações.

Ele compra uma Put com strike de R$ 55,00, pagando um prêmio de R$ 2,00.

Enquanto a ação permanecer acima de R$ 55, a proteção não terá valor intrínseco.

Mas imagine que aconteça algo inesperado.

A ação cai para R$ 40,00.

Sem a Put, a perda seria bastante significativa.

Com a Put, entretanto, o investidor possui um direito que ganhou valor justamente porque a ação caiu.

É como se ele tivesse comprado antecipadamente uma espécie de “piso” para sua posição, embora a comparação com um seguro tradicional tenha limitações.

O custo desse mecanismo foi o prêmio.

Portanto, podemos pensar no hedge da seguinte maneira: o investidor aceita um custo conhecido para reduzir o impacto de um risco que não conhece.

Essa é uma das ideias mais importantes quando estudamos proteção.

Hedge pode custar dinheiro mesmo quando tudo dá certo

Essa característica costuma causar alguma estranheza no início.

Imagine que o investidor tenha comprado a Put por R$ 2,00.

O mercado permanece tranquilo.

A ação, em vez de cair, sobe para R$ 70,00.

A proteção não foi necessária.

A Put pode perder valor e eventualmente expirar sem valor econômico (pó).

O investidor terá perdido o prêmio pago.

Mas isso não significa necessariamente que a estratégia de proteção tenha sido um erro.

A finalidade daquela posição não era obrigatoriamente produzir lucro.

Era proteger contra determinado cenário adverso.

Essa diferença entre proteção e rentabilidade precisa ficar muito clara.

Uma pessoa pode contratar um seguro durante anos e nunca sofrer um acidente.

Isso não significa que o seguro tenha sido inútil.

A proteção estava disponível justamente para um evento que poderia — ou não — acontecer.

Proteção tem preço

Existe, portanto, uma relação inevitável: quanto maior a proteção desejada, maior pode ser o custo dela.

O investidor precisa analisar quanto está disposto a pagar para reduzir determinado risco.

Imagine duas alternativas.

Uma Put possui strike próximo do preço atual da ação.

Outra possui strike bastante abaixo.

A primeira pode oferecer uma proteção mais ampla contra uma queda.

A segunda pode começar a proteger somente depois de uma desvalorização maior.

Mas os preços dessas opções também podem ser diferentes.

Não existe proteção gratuita.

Essa é uma das razões pelas quais o hedge precisa ser planejado.

Hedge não precisa ser utilizado apenas por quem possui ações

Embora a imagem mais simples seja a de um investidor comprando Put para proteger ações, o conceito de hedge é muito mais amplo.

Empresas, instituições financeiras, produtores, importadores, exportadores e diversos participantes do mercado podem utilizar instrumentos financeiros para reduzir determinados riscos.

O objetivo é semelhante:

evitar que uma variação desfavorável de preço produza um impacto financeiro maior do que aquele que o participante está disposto a suportar.

No caso do investidor em ações, podemos pensar em proteção contra uma queda.

Em outras situações, a proteção pode estar relacionada a moedas, juros, commodities ou outros ativos.

As opções são apenas uma das ferramentas disponíveis para esse tipo de gerenciamento.

Hedger, especulador e arbitrador

Quando começamos a compreender a finalidade dos derivativos, encontramos três participantes que aparecem com frequência nas explicações sobre o mercado: hedgers, especuladores e arbitradores.

O hedger utiliza os instrumentos financeiros principalmente para administrar ou reduzir um risco.

O especulador assume risco buscando obter resultado a partir de uma expectativa sobre o comportamento futuro dos preços.

O arbitrador procura explorar diferenças de preços ou condições entre mercados ou instrumentos equivalentes, buscando obter um resultado com risco reduzido ou, em determinadas estruturas, teoricamente próximo de zero.

Esses participantes não são necessariamente inimigos.

Na verdade, suas atividades ajudam a formar o próprio mercado.

O hedger procura proteção.

O especulador aceita assumir parte desse risco.

E o arbitrador ajuda a corrigir eventuais distorções de preços.

O especulador não é um “vilão”

Especulador representado como “vilão”, ilustrando uma visão equivocada sobre o mercado de opções
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Existe uma visão equivocada de que o especulador seria alguém que simplesmente aposta contra os demais participantes.

Não é bem assim.

O especulador desempenha uma função importante no mercado.

Imagine que um investidor queira comprar uma Put para proteger sua carteira.

Para que essa operação aconteça, alguém precisa estar disposto a vender aquela Put.

O lançador da opção assume uma obrigação em troca do prêmio.

Esse participante pode estar disposto a assumir esse risco porque possui uma expectativa diferente sobre o comportamento do ativo.

Assim, o mercado consegue colocar em contato participantes com necessidades diferentes.

Um quer proteção.

Outro está disposto a assumir o risco correspondente.

É justamente essa interação que permite que os contratos sejam negociados.

E onde entra a alavancagem?

Até aqui, estamos falando principalmente de redução de risco.

Agora precisamos virar completamente a perspectiva.

Se o hedge procura proteger uma posição, a alavancagem pode fazer justamente o contrário: ela permite que o investidor obtenha uma exposição potencialmente muito maior ao movimento de um ativo utilizando uma quantidade menor de capital.

É aqui que as opções começam a ficar particularmente atraentes — e perigosas.

Imagine novamente uma ação negociada a R$ 50,00.

Para comprar 1.000 ações, seria necessário desembolsar:

1.000 × R$ 50,00 = R$ 50.000,00

Agora imagine que uma Call sobre essa ação custe R$ 2,00.

Um contrato que represente 100 ações custaria, em termos simplificados: 100 × R$ 2,00 = R$ 200,00.

Com R$ 200,00, o investidor passa a ter uma exposição ao comportamento de 100 ações, e não simplesmente a uma aplicação de R$ 200,00 em ações.

É isso que chamamos de efeito de alavancagem.

Mas existe uma informação que jamais pode ser esquecida: maior exposição não significa maior certeza de ganho.

Significa apenas que o resultado percentual sobre o capital empregado pode ser muito maior — para o bem ou para o mal.

A mesma alavancagem que amplia o ganho amplia a perda

Vamos imaginar que aquela Call de R$ 2,00 valorize para R$ 4,00.

O investidor dobrou o valor da opção.

Em termos percentuais: R$ 2,00 → R$ 4,00. Isso representa um ganho de 100% sobre o capital aplicado na opção, antes de custos e impostos.

Se, entretanto, a Call cair de R$ 2,00 para R$ 1,00, teremos: R$ 2,00 → R$ 1,00. Uma perda de 50%.

E se a opção chegar a zero?

A perda será de 100% do prêmio pago.

É justamente aqui que precisamos ter cuidado com a palavra “alavancagem”.

Ela não significa simplesmente: “ganhar mais”.

Significa: “obter uma exposição maior em relação ao capital empregado”.

E essa relação pode produzir resultados extraordinariamente positivos ou extraordinariamente negativos.

Por que a alavancagem é tão sedutora?

Alavancagem com opções representada como conceito central para ampliar ganhos e perdas
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Porque os números podem parecer impressionantes.

Imagine investir R$ 1.000 em uma opção e obter um retorno de 100%.

O resultado seria: R$ 1.000 → R$ 2.000.

Parece fantástico.

Agora imagine que o mesmo capital perca 100%.

Teríamos: R$ 1.000 → R$ 0.

A matemática é exatamente a mesma.

O problema é que, quando estamos começando, nossa atenção tende a ficar concentrada no primeiro cenário.

Pensamos: “Se eu conseguir dobrar meu dinheiro…”

Mas esquecemos de completar a frase: “…também posso perder todo o dinheiro investido.”

Essa é uma das principais armadilhas psicológicas da alavancagem.

Alavancagem não é dinheiro grátis

É muito importante entender isso antes de avançarmos.

A opção pode permitir que o investidor controle uma exposição maior com menos capital.

Mas isso não significa que ele esteja recebendo uma vantagem gratuita.

Existe uma contrapartida.

O preço dessa maior exposição é justamente o risco.

Quanto menor for o capital utilizado para obter determinada exposição, maior poderá ser a variação percentual sobre esse capital.

Por isso, a alavancagem deve ser tratada como uma ferramenta que exige disciplina e controle de risco.

Não como um atalho para enriquecer rapidamente.

Hedge e alavancagem: objetivos opostos?

De certa maneira, podemos dizer que sim.

O hedge está associado à ideia de: “Quero reduzir o impacto de um movimento que pode me prejudicar.”

A alavancagem está associada à ideia de: “Quero obter uma exposição maior ao movimento que espero que aconteça”.

Um procura administrar o risco.

O outro aceita mais risco em busca de um potencial resultado maior sobre o capital empregado.

Mas existe algo em comum: ambos exigem conhecimento.

No hedge, é preciso entender exatamente o que está sendo protegido.

Na alavancagem, é preciso entender exatamente quanto está sendo colocado em risco.

O grande risco da alavancagem é: 100 opções a R$ 0,25 = R$ 25,00, com a ação-objeto valendo, digamos, R$ 18,90. Portanto, um lote equivale a 100 x R$ 18,90 = 1.890,00.

Então o investidor pensa: R$ 25,00 eu tenho no bolso da calça!

Mas de alguma forma parece ignorar o preço da ação-objeto, então resolve alavancar e operar com 1.000 opções.

A conta agora é: 1.000 x 18,90 (preço da ação-objeto) = 18.900,00.

Entretanto, o investidor só tem R$ 16.000,00 na conta da corretora. Caso ele seja exercido, vai precisar ter todo o dinheiro, R$ 18.900,00.

Agora imagine se, ao invés de operar 1.000 opções o investidor tivesse tido a imprudência de operar com um número ainda maior de opções?

Este é o grande risco da alavancagem.

O mercado não sabe qual é a sua intenção

Existe ainda uma questão importante.

Uma mesma opção pode ser utilizada por investidores com objetivos completamente diferentes.

Para um investidor, uma Put pode representar proteção.

Mas para outro, pode representar uma posição especulativa diante de uma expectativa de queda.

Finalmente, para um terceiro, uma opção pode fazer parte de uma estrutura muito mais complexa.

O contrato é o mesmo.

O objetivo é que muda.

Por isso, não devemos classificar uma opção simplesmente como “boa” ou “ruim”.

Precisamos perguntar: para que ela está sendo utilizada?

E, principalmente: qual risco essa utilização cria?

O conhecimento vem antes da alavancagem

Esse ponto merece ser reforçado.

A alavancagem é provavelmente uma das características que mais chamam a atenção de quem começa a conhecer as opções.

A possibilidade de transformar uma pequena variação do ativo em uma grande variação percentual no capital investido é sedutora.

Mas justamente por isso ela exige cautela.

Antes de pensar: “Quanto posso ganhar?”

É preciso perguntar: “Quanto posso perder?”

Depois: “Em quanto tempo isso pode acontecer?”

E finalmente: “Estou preparado para suportar essa perda?”

Se essas respostas não estiverem claras, a operação provavelmente ainda não foi suficientemente estudada.

Alavancagem: quando uma pequena quantia controla uma exposição maior

No tópico anterior, começamos a compreender o conceito de alavancagem.

Vimos que ela permite obter uma exposição potencialmente maior ao comportamento de um ativo utilizando uma quantidade menor de capital.

Essa característica é uma das razões pelas quais as opções despertam tanto interesse.

Mas também é uma das razões pelas quais elas exigem tanto cuidado.

A alavancagem pode fazer com que uma variação relativamente pequena no preço do ativo produza uma variação muito maior, em termos percentuais, no valor da opção.

E isso pode acontecer tanto para cima quanto para baixo.

Por isso, antes de enxergar a alavancagem como uma oportunidade, precisamos compreender sua matemática.

A diferença entre investir em ações e comprar uma opção

Imagine uma ação sendo negociada a: R$ 50,00.

Um investidor deseja comprar 100 ações.

O capital necessário seria: 100 × R$ 50,00 = R$ 5.000,00.

Agora imagine uma Call sobre essa mesma ação com strike de R$ 50,00 sendo negociada por R$ 2,00.

Considerando um contrato equivalente a 100 ações, o custo da opção seria: 100 × R$ 2,00 = R$ 200,00.

Temos, portanto, duas situações completamente diferentes:

Compra das ações: R$ 5.000,00.

Compra da Call: R$ 200,00.

O investidor que compra a Call não está simplesmente comprando “R$ 200,00 em ações”.

Ele está adquirindo um direito relacionado a 100 ações, mediante o pagamento de um prêmio de R$ 200,00.

É justamente essa diferença entre o capital desembolsado e a exposição ao ativo que produz o efeito de alavancagem.

E se a ação subir 10%?

Agora vamos imaginar que a ação passe de: R$ 50,00 → R$ 55,00.

Uma valorização de 10%.

Quem comprou as 100 ações terá: 100 × R$ 55,00 = R$ 5.500,00.

Seu patrimônio investido em ações aumentou em: R$ 500,00.

Ou seja, aproximadamente 10% sobre os R$ 5.000,00 inicialmente investidos, antes de custos e impostos.

Mas o comportamento da Call pode ser muito diferente.

Suponha, apenas para simplificar a demonstração, que a Call passe de R$ 2,00 para R$ 6,00.

O valor da posição passaria de: R$ 200,00 → R$ 600,00.

O ganho seria de R$ 400,00.

Em termos percentuais: 100% de valorização.

Perceba a diferença.

A ação subiu 10%.

A opção, nesse exemplo hipotético, subiu 200%.

Essa é a força da alavancagem.

Mas também é exatamente aqui que precisamos tomar cuidado.

A alavancagem não criou dinheiro do nada

É importante não interpretar o exemplo anterior como se a opção tivesse alguma espécie de capacidade mágica de multiplicar dinheiro.

Não existe mágica.

Existe uma relação diferente entre capital empregado e exposição ao ativo.

O investidor colocou R$ 200,00 na opção.

Esse capital representa uma exposição econômica muito diferente daquela obtida simplesmente investindo R$ 200,00 na ação.

Por isso, pequenas alterações no preço da ação podem produzir grandes alterações percentuais no valor da opção.

Mas essa relação funciona nos dois sentidos.

Se a ação subir e a opção valorizar, o resultado pode ser extraordinário.

Mas se a ação cair ou não se comportar como esperado, a opção pode perder grande parte de seu valor.

Agora vamos inverter o cenário

Imagine que a ação não suba.

Ela cai de: R$ 50,00 → R$ 45,00.

Uma queda de apenas 10%.

Para quem possui as 100 ações, a posição passa de R$ 5.000,00 → R$ 4.500,00.

A perda é de R$ 500,00.

Ou aproximadamente 10%.

Agora imagine que aquela Call de R$ 2,00 caia para apenas R$ 0,50.

A posição que custou R$ 200,00 passa a valer R$ 50,00.

A perda seria de R$ 150,00.

Ou 75% do capital investido na opção.

Perceba novamente a assimetria.

A ação caiu 10%.

A opção caiu 75%.

É por isso que a palavra alavancagem precisa sempre vir acompanhada da palavra risco.

O pior cenário para uma Call comprada

Existe ainda um aspecto importante.

Se uma Call for comprada e chegar ao vencimento sem valor econômico, o comprador poderá perder 100% do prêmio pago.

No nosso exemplo: R$ 200,00 investidos → R$ 0,00.

A perda percentual será de 100%.

Por outro lado, o comprador de uma Call não perde mais do que o prêmio pago pela própria opção, desconsiderando custos.

Essa característica é importante.

Ela significa que, para o comprador de uma Call, existe uma perda máxima conhecida no momento da entrada: o valor do prêmio.

O potencial de valorização, por outro lado, pode ser muito maior.

Isso ajuda a explicar por que a compra de opções pode apresentar uma relação de risco e retorno tão diferente da compra direta da ação.

Mas o tempo também trabalha contra o comprador

Investidor acompanhando o mercado com relógio representando o efeito do tempo sobre as opções
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Existe ainda um elemento que não aparece simplesmente olhando para o preço da ação.

O tempo.

Uma Call não possui valor indefinidamente.

Ela tem uma data de vencimento.

Imagine que você tenha comprado uma Call porque acredita que uma ação irá subir.

Mas a ação permanece praticamente parada durante semanas.

Nada de extraordinário aconteceu.

Mesmo assim, a opção pode perder valor.

Por quê?

Porque o tempo disponível para que sua expectativa se concretize está diminuindo.

Esse é um dos aspectos que diferenciam profundamente uma opção de uma ação.

Ao comprar uma ação, você pode esperar.

Ao comprar uma opção, existe um relógio correndo.

Acertar a direção pode não ser suficiente

Essa talvez seja uma das lições mais importantes para quem começa a operar opções.

Imagine que você compre uma Call porque acredita que determinada ação vai subir.

Você está certo.

A ação sobe.

Mas sobe pouco.

Ou sobe tarde demais.

Ou sobe apenas depois que boa parte do tempo da opção já passou.

Você acertou a direção.

Mas isso não significa necessariamente que tenha acertado a operação.

Nas opções, precisamos pensar simultaneamente em: direção + magnitude + tempo.

Não basta perguntar: “A ação vai subir?”

É necessário pensar: “Quanto ela poderá subir?”

E: “Em quanto tempo isso poderá acontecer?”

Essas três dimensões ajudam a explicar por que o comportamento de uma opção é muito mais complexo do que simplesmente acompanhar a cotação da ação.

A alavancagem pode funcionar a favor do investidor

Até aqui, enfatizamos os riscos.

Mas seria injusto ignorar o motivo pelo qual a alavancagem é tão utilizada.

Quando uma expectativa se confirma rapidamente e com intensidade suficiente, o resultado sobre o capital empregado pode ser expressivo.

Imagine um investidor que tenha desembolsado R$ 1.000,00 em determinada opção.

Se essa opção passar a valer R$ 2.000,00, o capital dobrou.

Temos: R$ 1.000,00 → R$ 2.000,00.

Um ganho de 100%.

Se a opção passar a valer R$ 3.000,00, saindo de R$ 1.000,00 para R$ 3.000,00.

O ganho será de 200%.

Esses números ajudam a entender por que as opções atraem tantos investidores.

Mas também mostram por que é perigoso olhar apenas para os cenários positivos.

O mesmo raciocínio vale para a Put

A alavancagem não é exclusividade das Calls.

Uma Put comprada também pode apresentar grande variação percentual em relação ao movimento do ativo.

Imagine uma ação cotada a R$ 50,00.

Um investidor compra uma Put por R$ 2,00.

Se a ação sofrer uma queda significativa, a Put poderá se valorizar de maneira bastante expressiva.

Por exemplo, se o prêmio passar de R$ 2,00 para R$ 5,00, teremos uma valorização de 150%.

Enquanto isso, a ação pode ter apresentado uma queda muito menor, em termos percentuais.

Novamente, a explicação está na relação entre o preço do ativo, o strike, o tempo restante e o valor do prêmio.

A alavancagem não é exclusiva de quem compra opções

Outro ponto importante é que o conceito de alavancagem não se limita à compra de Calls e Puts.

Existem diversas estruturas no mercado financeiro capazes de gerar exposição superior ao capital diretamente empregado.

No universo das opções, entretanto, esse efeito fica particularmente evidente porque o prêmio de uma opção pode ser uma fração do valor do ativo relacionado ao contrato.

É justamente por isso que precisamos evitar uma conclusão perigosa: “Se posso controlar uma exposição maior com menos dinheiro, então é melhor utilizar opções.”

Não necessariamente.

A pergunta correta é: “Essa exposição adicional é compatível com o risco que estou disposto a assumir?”

Menos capital não significa menos risco

Essa é uma das ideias que eu gostaria que todo iniciante guardasse.

Imagine duas operações.

Na primeira, você investe R$ 10.000,00 em ações.

Na segunda, investe apenas R$ 1.000,00 em opções.

À primeira vista, pode parecer que a segunda operação é automaticamente menos arriscada porque você colocou menos dinheiro.

Mas essa conclusão pode ser enganosa.

Os R$ 1.000,00 podem representar uma exposição econômica muito maior do que os R$ 10.000,00 aplicados diretamente em ações.

Por isso, capital desembolsado e risco econômico não são necessariamente a mesma coisa.

Esse é um dos principais conceitos que diferenciam o mercado de opções de um investimento tradicional em ações.

Por que a alavancagem exige disciplina?

Imagine que um investidor tenha R$ 10.000,00 disponíveis.

Ele poderia comprar uma quantidade relativamente limitada de ações.

Mas talvez consiga adquirir opções com um valor de prêmio muito menor.

Se pensar apenas no potencial de ganho, poderá concluir: “com pouco dinheiro posso ganhar muito.”

Mas existe outra pergunta: “com pouco dinheiro posso perder quanto?”

Dependendo da estratégia, poderá perder uma parcela significativa do capital utilizado.

E, em determinadas estruturas de opções, as perdas podem ser muito maiores do que o prêmio inicialmente recebido ou pago.

Por isso, não podemos generalizar o risco de todas as operações com opções.

Comprar uma opção, lançar uma opção descoberta e montar uma trava são situações completamente diferentes.

Cada uma precisa ser analisada individualmente.

A alavancagem transforma pequenas variações em grandes emoções

Existe ainda um aspecto que não aparece nas fórmulas: o comportamento psicológico do investidor.

Imagine possuir uma ação que varia 1% em determinado dia.

Talvez isso não provoque nenhuma reação especial.

Agora imagine possuir uma opção que varia 20%, 30% ou 40% no mesmo período.

A pressão psicológica pode ser completamente diferente.

Quando o capital se movimenta rapidamente, aumenta também a possibilidade de decisões emocionais.

O investidor pode:

  • realizar um lucro prematuramente;
  • aumentar uma posição perdedora;
  • tentar recuperar uma perda;
  • assumir riscos maiores;
  • ou simplesmente abandonar uma estratégia previamente planejada.

Por isso, controlar a alavancagem também significa controlar o comportamento.

A pergunta mais importante não é “quanto posso ganhar?”

Depois de observar esses exemplos, talvez possamos reformular a pergunta inicial.

Em vez de: “Quanto posso ganhar com opções?”

Devemos perguntar: “Qual exposição estou assumindo para buscar esse resultado?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

Uma operação que promete um ganho potencial de 100% pode parecer maravilhosa.

Mas se, para isso, estivermos assumindo uma possibilidade de perda incompatível com nosso patrimônio ou com nossa tolerância ao risco, talvez a operação não faça sentido.

O retorno potencial precisa sempre ser analisado em conjunto com: risco + prazo + probabilidade + capital envolvido.

Hedge e alavancagem representam dois lados diferentes do uso das opções

Agora podemos colocar os dois conceitos que dão título a este artigo lado a lado.

Hedge:

O investidor possui uma exposição e procura reduzir o impacto de um movimento adverso.

A opção pode funcionar como instrumento de proteção.

Existe um custo para essa proteção.

Alavancagem:

O investidor utiliza uma quantidade menor de capital para obter uma exposição potencialmente maior ao movimento de um ativo.

O potencial de retorno sobre o capital empregado pode aumentar.

Mas o risco percentual também aumenta.

Portanto: Hedge procura administrar o risco.

Alavancagem aceita mais risco para buscar maior exposição.

São objetivos diferentes.

E confundir os dois pode levar a decisões inadequadas.

O mercado de opções permite escolher diferentes níveis de risco

Essa talvez seja uma das características mais interessantes do mercado de derivativos.

Não existe apenas uma maneira de utilizar opções.

Podemos construir posições com diferentes características.

Podemos limitar riscos, aceitar maior exposição, proteger uma carteira, buscar uma determinada assimetria entre ganho e perda, combinar opções com ações, ou podemos combinar diferentes opções.

E ainda podemos, simplesmente, não operar.

Isso significa que o verdadeiro conhecimento sobre opções não está em descobrir uma operação que sempre funcione.

Está em compreender o comportamento de cada estrutura antes de colocar dinheiro nela.

A alavancagem não deve ser confundida com enriquecimento rápido

Talvez essa seja a melhor forma de encerrar este tópico.

As opções podem, de fato, produzir retornos percentuais extraordinários.

Mas isso não significa que sejam um caminho fácil para enriquecer.

Na verdade, quanto maior for o potencial de multiplicação do capital em determinado período, maior deve ser nossa atenção ao risco.

O mercado não oferece retornos extraordinários gratuitamente.

Quando existe a possibilidade de ganhar muito com pouco capital, normalmente existe também uma contrapartida: maior risco, maior incerteza ou maior probabilidade de perda.

É exatamente por isso que o conhecimento precisa vir antes da operação.

Proteger o patrimônio também é uma forma de investir

Até aqui, demos bastante atenção à alavancagem.

E é fácil entender por quê.

A possibilidade de utilizar pouco capital para obter uma exposição relativamente grande chama a atenção.

Não se engane: o capital usado é pequeno, entretanto, a exposição pode ser desproporcional ao patrimônio.

Mas existe outro uso das opções que, para quem pensa na construção de patrimônio, pode ser ainda mais importante: a proteção.

No mercado financeiro, essa proteção recebe o nome de hedge.

A ideia central é simples: você aceita um determinado custo hoje para reduzir o impacto de um risco que poderá ocorrer amanhã.

Essa lógica aparece neste artigo e é uma das duas grandes utilidades das opções destacadas pela B3: mitigar os riscos das oscilações de preços e oferecer mecanismos de proteção contra possíveis perdas.

Hedge não é uma tentativa de ganhar dinheiro

Essa talvez seja a primeira diferença que precisamos estabelecer.

Quando alguém compra uma Put para proteger uma posição em ações, sua intenção principal não é ganhar dinheiro com a Put.

Seu objetivo é reduzir uma perda potencial da carteira.

Isso muda completamente a maneira de analisar a operação.

Imagine que você tenha uma ação que considera interessante para manter em sua carteira.

Você acredita no negócio.

Acredita que, ao longo dos anos, aquela empresa poderá continuar crescendo.

Mas sabe que, no curto prazo, o mercado pode produzir movimentos violentos.

Você poderia simplesmente vender a ação.

Mas, se fizer isso, deixará de participar de uma eventual recuperação ou valorização.

Outra alternativa seria permanecer com a ação e aceitar integralmente o risco.

E existe uma terceira possibilidade: permanecer com a ação e comprar uma Put como proteção.

Nesse caso, você não está tentando adivinhar o futuro.

Está tentando se preparar para ele.

O exemplo da VALE ajuda a entender a lógica

Vamos voltar ao exemplo apresentado neste artigo.

Imagine uma ação da Vale negociada a R$ 60,00.

O investidor acredita no potencial de longo prazo da empresa, mas está preocupado com uma possível queda no curto prazo.

Ele decide comprar uma Put com:

  • Strike: R$ 55,00
  • Prêmio: R$ 2,00 por ação

Se a ação cair para R$ 45,00, a Put passa a ter uma função importante.

O investidor possui o direito de vender pelo strike de R$ 55,00.

Sem a proteção, a ação teria caído: R$ 60,00 → R$ 45,00.

Uma perda de R$ 15,00 por ação.

Com a Put, entretanto, existe o direito de vender por R$ 55,00.

A diferença entre o preço original da ação e o strike é: R$ 60,00 − R$ 55,00 = R$ 5,00.

Além disso, houve o pagamento do prêmio de R$ 2,00.

Assim, nesse exemplo simplificado, o custo econômico total da proteção seria de aproximadamente: R$ 7,00 por ação.

A proteção não eliminou o risco.

Mas reduziu significativamente seu impacto.

O exemplo original apresenta exatamente essa lógica: o prêmio funciona como o custo de obtenção da proteção.

E se a queda nunca acontecer?

Aqui está uma das características mais interessantes do hedge.

Imagine que a ação, em vez de cair, suba para R$ 70,00.

Nesse cenário, a Put provavelmente não será exercida.

Afinal, não faria sentido vender por R$ 55,00 uma ação que pode ser vendida no mercado por R$ 70,00.

A Put poderá perder seu valor e, dependendo das condições, expirar sem valor.

O investidor terá perdido o prêmio pago.

Mas a ação terá valorizado.

É exatamente aqui que aparece a comparação com um seguro.

Você paga pelo seguro mesmo quando nenhum acidente acontece.

O objetivo não é necessariamente receber dinheiro do seguro.

O objetivo é estar protegido caso o evento indesejado aconteça.

No exemplo, essa é justamente a ideia: se a ação subir, a Put pode não ser utilizada e o prêmio pago representa o custo da proteção.

O custo da tranquilidade

Criança dormindo tranquilamente, simbolizando a proteção e a tranquilidade proporcionadas pelo hedge
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Existe uma expressão que gosto particularmente para explicar o hedge: é o preço da tranquilidade.

Imagine que você tenha uma posição relevante em ações.

Você sabe que uma queda brusca poderia comprometer uma parte importante do patrimônio.

Ao comprar uma Put, você está dizendo: “Estou disposto a abrir mão de uma pequena parcela do meu resultado potencial para reduzir o impacto de uma grande perda.”

Essa é uma decisão racional de gerenciamento de risco.

Não significa que a operação necessariamente será lucrativa.

Significa que o investidor está conscientemente pagando para alterar o perfil de risco de sua posição.

Quanto custa proteger uma carteira?

Essa pergunta não possui uma resposta única.

O custo dependerá de vários fatores, incluindo:

  • preço do ativo;
  • strike escolhido;
  • prazo até o vencimento;
  • volatilidade;
  • condições do mercado;
  • oferta e demanda pela opção.

Uma Put muito próxima do preço atual da ação tende a apresentar características diferentes de uma Put muito distante.

Uma opção com bastante tempo até o vencimento também possui características diferentes de uma opção que está prestes a vencer.

Portanto, não existe uma proteção universal.

Existe a proteção que faz sentido para determinado objetivo.

Proteção maior pode significar custo maior

Imagine que uma ação esteja sendo negociada a R$ 60,00.

Você pode procurar uma Put com strike de R$ 58,00.

Ou uma Put com strike de R$ 50,00.

As duas podem oferecer proteção, mas não da mesma maneira.

A Put de R$ 58,00 começa a oferecer proteção em uma queda relativamente menor.

A de R$ 50,00 permite que o ativo caia muito mais antes de começar a produzir uma proteção significativa.

Consequentemente, as duas opções podem apresentar preços bastante diferentes.

Isso nos leva a uma conclusão importante:

O objetivo do hedge não é simplesmente comprar qualquer Put.

É definir qual risco você deseja proteger e quanto está disposto a pagar por essa proteção.

O hedge pode mudar completamente o comportamento de uma carteira

Imagine duas carteiras idênticas.

As duas possuem as mesmas ações.

A primeira não possui qualquer proteção.

A segunda possui uma estrutura de hedge.

Se o mercado subir fortemente, a primeira carteira poderá apresentar um resultado melhor, porque não houve gasto com proteção.

Mas, se ocorrer uma queda severa, a segunda poderá sofrer um impacto menor.

Temos, portanto, uma troca.

Menor custo em um cenário favorável em troca de maior proteção em um cenário desfavorável.

Não existe almoço grátis.

A proteção tem um preço.

E o investidor precisa decidir se esse preço é aceitável diante do risco que pretende administrar.

O papel do hedger

É nesse momento que aparece um personagem importante do mercado de derivativos: o hedger.

O hedger é o participante que utiliza instrumentos financeiros para administrar determinado risco.

No nosso exemplo, ele possui a ação e compra a Put para se proteger de uma queda.

Sua preocupação principal não é obter lucro com a opção isoladamente.

Ele está olhando para o resultado conjunto da carteira.

Essa diferença é fundamental.

O que pode parecer uma operação ruim quando analisamos apenas a opção pode ser perfeitamente racional quando observamos toda a posição.

Imagine, por exemplo, que a Put tenha perdido R$ 500,00.

À primeira vista, alguém poderia dizer:

“Você perdeu dinheiro na opção.”

Mas se, simultaneamente, a queda da ação provocou uma perda de R$ 5.000,00 e a Put reduziu essa perda em R$ 3.000,00, o resultado da carteira foi beneficiado pela existência da proteção.

É por isso que um hedge deve ser analisado em conjunto com a posição que está sendo protegida.

Quem vende a proteção?

Se alguém compra uma Put, alguém precisa vendê-la.

Essa é uma característica fundamental do mercado.

O comprador da Put deseja adquirir um direito.

O vendedor aceita assumir uma obrigação em troca do prêmio.

No exemplo que estamos utilizando, o comprador da Put deseja proteção contra uma queda.

O lançador da Put recebe o prêmio e assume a possibilidade de ter que comprar o ativo pelo strike, caso as condições do contrato levem ao exercício.

Este artigo chama atenção exatamente para essa relação entre hedger e especulador.

O especulador também tem uma função importante

A palavra “especulador” muitas vezes é utilizada de maneira negativa.

Mas, no mercado financeiro, especular não significa necessariamente agir de maneira irresponsável.

O especulador é aquele que aceita assumir determinado risco porque acredita que poderá obter um resultado com isso.

No nosso exemplo, o lançador da Put pode acreditar que a ação não cairá abaixo do strike.

Ou pode estar disposto a comprar as ações naquele preço caso isso aconteça.

Em troca de assumir essa obrigação, recebe o prêmio.

Assim, o mercado coloca frente a frente participantes com interesses diferentes.

Um procura proteção.

Outro aceita o risco.

Essa interação contribui para a existência de liquidez no mercado de opções.

O mesmo contrato pode servir a objetivos completamente diferentes

Esse é um conceito que vale a pena guardar.

A mesma Put pode ser:

  • uma ferramenta de proteção para um investidor;
  • uma operação especulativa para outro;
  • parte de uma estratégia mais complexa para um terceiro.

O contrato é o mesmo.

O que muda é a finalidade da operação.

Por isso, quando alguém pergunta: “Essa opção é boa?”

A pergunta está incompleta.

Precisaríamos perguntar: “Boa para quê?”

Uma opção pode ser excelente para proteção e inadequada para especulação.

Pode ser interessante para determinada estrutura e ruim para outra.

O contexto é fundamental.

Hedge não é sinônimo de garantia

Existe ainda uma ressalva importante.

Mesmo uma estratégia de hedge precisa ser cuidadosamente analisada.

A proteção pode ter:

  • custo;
  • prazo;
  • strike;
  • limites;
  • riscos de execução;
  • e características próprias de cada contrato.

Além disso, a proteção de uma posição não significa necessariamente que todos os riscos da carteira tenham sido eliminados.

Pode existir risco de mercado, risco de liquidez, risco de execução e outros fatores.

Portanto, a palavra hedge não deve ser confundida com a palavra garantia.

Hedge significa gerenciamento de risco.

Proteger patrimônio também é buscar rentabilidade

Essa afirmação pode parecer contraditória.

Mas pensemos no longo prazo.

Se uma pessoa sofre uma grande perda patrimonial, ela precisará de um retorno muito maior para recuperar o capital perdido.

Uma queda de 50%, por exemplo, não é recuperada com uma alta de 50%.

Depois de cair de R$ 100 para R$ 50, seria necessário subir 100% para retornar aos R$ 100.

É por isso que preservar o patrimônio possui enorme importância na construção de riqueza.

O investidor que evita grandes perdas não está necessariamente abrindo mão de rentabilidade.

Ele pode estar protegendo a capacidade de continuar investindo no futuro.

Essa visão é particularmente importante para quem pensa no longo prazo.

A grande lição do hedge

Depois de analisar essa estrutura, podemos resumir a ideia em uma frase: Hedge não existe para transformar uma operação ruim em uma operação boa. Existe para tornar uma operação potencialmente perigosa mais administrável.

O investidor paga pela proteção.

Se o evento adverso não acontece, pode considerar o custo como o preço da proteção.

Mas se o evento acontece, a proteção pode reduzir significativamente o impacto sobre seu patrimônio.

É uma decisão de gerenciamento.

E não uma promessa de lucro.

Hedge ou alavancagem: duas maneiras completamente diferentes de usar opções

Depois de conhecer os dois conceitos, podemos finalmente colocá-los lado a lado.

De um lado, temos o hedge, cuja finalidade é reduzir o impacto de um risco.

Do outro, temos a alavancagem, que permite aumentar a exposição potencial ao comportamento de um ativo utilizando uma quantidade menor de capital.

São duas utilizações legítimas das opções.

Mas representam filosofias muito diferentes.

No hedge, a pergunta é: “Como posso proteger aquilo que já tenho?”

Na alavancagem, a pergunta é: “Como posso obter uma exposição maior utilizando menos capital?”

A primeira procura administrar o risco.

A segunda aceita maior risco em busca de um potencial resultado maior sobre o capital empregado.

O mesmo instrumento pode produzir resultados completamente diferente

Dois músicos tocando violões, ilustrando como o mesmo instrumento pode ser utilizado de maneiras diferentes
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Imagine novamente uma Put.

Para determinado investidor, ela pode representar uma proteção para uma carteira de ações.

Para outro, pode representar uma aposta na queda de determinado ativo.

O instrumento é exatamente o mesmo.

O que muda é a finalidade.

Essa é uma característica importante do mercado de derivativos.

Não devemos avaliar uma opção isoladamente.

Precisamos compreender como ela está sendo utilizada dentro de uma estratégia.

Uma Put comprada como proteção possui uma função.

Porém, uma Put comprada exclusivamente porque o investidor acredita que determinada ação cairá possui outra.

E uma Put lançada possui outra completamente diferente.

Por isso, estudar opções significa muito mais do que decorar o significado de Call e Put.

É preciso compreender a relação entre: posição + objetivo + risco + prazo + capital.

O que realmente significa assumir risco?

Existe uma diferença enorme entre assumir risco conscientemente e simplesmente se expor ao risco.

Todo investimento envolve algum grau de incerteza.

O problema não é assumir risco, mas sim assumir um risco que não compreendemos.

Quando alguém compra uma Put para proteger sua carteira, está conscientemente pagando para reduzir determinado risco.

Quando alguém compra uma Call buscando alavancagem, também pode estar conscientemente aceitando o risco de perder o prêmio.

Nos dois casos existe risco.

A diferença está na intenção e no conhecimento da estrutura.

O investidor responsável não procura eliminar todo risco.

Procura entender qual risco está assumindo, quanto pode perder e por que está disposto a assumi-lo.

A importância de saber quanto pode perder

Essa talvez seja a pergunta mais importante de qualquer operação com opções: “Qual é a minha perda máxima?”

Na compra de uma opção, a resposta, em condições normais e desconsiderando custos, é relativamente simples: o prêmio pago.

Se foram investidos R$ 1.000 em uma opção e ela expirar sem valor, os R$ 1.000 poderão ser perdidos integralmente (vira pó).

Isso não significa que a operação seja necessariamente ruim.

Significa que o risco precisa ser conhecido antes da entrada.

O problema aparece quando o investidor olha apenas para o potencial de ganho.

Se ele pensa: “Posso ganhar 200%.”

Mas não pensa: “Também posso perder 100%.”

Está analisando apenas metade da operação.

O patrimônio deve ser tratado de maneira diferente do capital de risco

Aqui entramos em um conceito que considero fundamental para quem pretende investir durante muitos anos.

Nem todo dinheiro deve ser tratado da mesma maneira.

Existe uma diferença entre o patrimônio que está sendo construído para o longo prazo e uma parcela de capital que o investidor está disposto a utilizar em operações de maior risco.

Essa separação ajuda a evitar que uma operação malsucedida comprometa todo o trabalho realizado anteriormente.

Imagine alguém que tenha levado vinte anos para acumular R$ 500.000.

Seria racional colocar todo esse patrimônio em uma única operação altamente alavancada?

Mesmo que o potencial de ganho seja extraordinário?

Claramente não.

O problema não está na possibilidade de ganhar.

Está na possibilidade de uma única decisão comprometer uma parcela desproporcional de tudo o que foi construído.

É aqui que entra a diversificação

Uma das maneiras mais simples de reduzir o impacto de um evento inesperado é não concentrar todo o risco em uma única posição.

Isso vale para ações, vale para opções, vale para diferentes setores e vale também para diferentes estratégias.

Imagine que um investidor tenha dez operações diferentes.

Uma delas produz uma perda significativa.

As outras nove permanecem dentro do comportamento esperado.

O impacto sobre o patrimônio tende a ser muito diferente daquele observado quando o investidor concentra todo o capital em uma única operação.

Não existe garantia de resultado.

Mas existe uma diferença enorme entre diversificar riscos e concentrá-los.

“Ganhar de balde e perder de colherinha”

Balde cheio de grãos ao lado de uma pequena colher, simbolizando a diferença entre grande e pequena exposição financeira
Fonte: acervo “Paciência&Prosperidade”

Existe uma frase que resume muito bem essa filosofia:

“O segredo do sucesso é ganhar de balde e perder de colherinha.”

A ideia é simples e poderosa.

Não precisamos acertar todas as operações.

Perdas fazem parte do mercado.

O objetivo é evitar que uma perda isolada seja suficientemente grande para destruir os ganhos acumulados anteriormente.

Imagine uma sequência de operações.

Algumas dão certo e outras dão errado.

Isso é perfeitamente normal.

O problema aparece quando uma única perda é tão grande que elimina o resultado de várias operações vencedoras.

Nesse caso, o investidor está permitindo que uma operação tenha poder demais sobre seu patrimônio.

Ganhos e perdas não têm o mesmo efeito matemático

Existe ainda uma característica matemática que todo investidor deveria compreender.

Imagine que você possua R$ 100.000.

Se o patrimônio crescer 10%, passará para R$ 110.000.

Agora imagine uma perda de 10%.

Voltará para R$ 99.000.

Ou seja, uma alta de 10% seguida de uma queda de 10% não devolve o investidor exatamente ao ponto de partida.

Isso acontece porque os percentuais incidem sobre bases diferentes.

E quanto maior for a perda, maior será o retorno necessário para recuperar o patrimônio.

Veja:

PerdaGanho necessário para recuperar
10%11,1%
20%25%
30%42,9%
40%66,7%
50%100%
60%150%
70%233,3%
80%400%
90%900%

Essa tabela mostra por que a preservação do capital é tão importante.

Uma perda de 50% não é recuperada com um ganho de 50%.

É necessário dobrar o patrimônio restante.

Por isso, controlar perdas não é uma atitude conservadora no sentido negativo da palavra.

É uma questão matemática.

O perigo da concentração

Imagine agora uma carteira de R$ 100.000.

Se uma única operação representar R$ 80.000 desse patrimônio, qualquer movimento adverso nessa posição terá consequências enormes.

Se a mesma operação representar apenas R$ 5.000, o impacto potencial será muito menor.

Isso não significa que a segunda operação seja necessariamente melhor.

Significa apenas que o tamanho da posição importa.

É possível estar certo na análise e ainda assim perder dinheiro se o tamanho da posição for inadequado.

Essa é uma das grandes lições do gerenciamento de risco.

Não operar também significa operar

Existe ainda uma decisão que muitas vezes é esquecida: não fazer nada.

O mercado apresenta oportunidades praticamente todos os dias.

Mas isso não significa que precisamos participar de todas elas.

Pode acontecer de:

  • o risco ser elevado demais;
  • o prêmio não compensar;
  • o cenário estar indefinido;
  • a relação entre risco e retorno não ser interessante;
  • ou simplesmente não existir uma oportunidade que esteja de acordo com nosso planejamento.

Nesse caso, ficar de fora também é uma decisão de investimento.

E, muitas vezes, é uma excelente decisão.

O mercado sempre oferecerá uma nova oportunidade

Essa é uma ideia especialmente importante para quem utiliza opções.

Uma operação perdida pode produzir frustração.

Uma oportunidade perdida pode produzir ansiedade.

Mas existe uma diferença: o mercado continua funcionando.

Se uma operação não aconteceu hoje, outra oportunidade poderá aparecer amanhã.

E se uma operação deu errado, novas oportunidades surgirão.

Não existe necessidade de recuperar imediatamente uma perda.

E esse talvez seja um dos comportamentos mais perigosos do mercado: tentar recuperar rapidamente aquilo que foi perdido.

A partir desse momento, o investidor deixa de analisar oportunidades e começa a perseguir o próprio prejuízo.

A armadilha da vingança contra o mercado

Imagine que uma operação produza uma perda de R$ 1.000.

O investidor pensa: “Preciso recuperar esses R$ 1.000.”

Então aumenta o tamanho da próxima operação.

Se perder novamente, aumenta ainda mais.

Em pouco tempo, a preocupação deixou de ser encontrar uma boa oportunidade.

Passou a ser recuperar uma perda anterior.

Isso é extremamente perigoso.

O mercado não sabe que você perdeu dinheiro.

Não sabe quanto você precisa recuperar.

E certamente não tem obrigação alguma de devolver seu capital.

Cada operação precisa ser analisada como uma nova decisão.

Uma perda não precisa ser um fracasso

Essa é outra mudança de mentalidade importante.

Uma operação que terminou com prejuízo não é necessariamente uma operação ruim.

Ou uma operação que terminou com lucro também não é necessariamente uma boa operação.

Imagine duas situações.

Na primeira, o investidor segue corretamente seu planejamento, respeita seu limite de risco e termina com uma pequena perda.

Na segunda, ignora completamente o gerenciamento de risco, mas tem sorte e obtém um grande lucro.

Qual foi a melhor decisão?

Embora possa não parecer, a melhor foi a primeira.

Porque o resultado de uma única operação não é suficiente para avaliar a qualidade de uma estratégia.

O que importa é o comportamento ao longo de muitas operações.

O longo prazo muda a maneira de enxergar as opções

Quando pensamos no longo prazo, algumas ideias ficam mais claras.

Não precisamos ganhar todas as vezes.

Também não precisamos participar de todos os movimentos.

Nem precisamos buscar retornos extraordinários em todas as operações.

Precisamos construir um processo que permita que o patrimônio sobreviva aos períodos ruins e continue crescendo ao longo do tempo.

É justamente aqui que a combinação entre análise, disciplina e gerenciamento de risco se torna tão importante.

As opções podem ser excelentes ferramentas.

Mas nenhuma ferramenta substitui uma estratégia.

E onde entra a alavancagem nessa filosofia?

A alavancagem pode fazer parte de uma estratégia.

Mas deve ser tratada com muito cuidado.

Se uma operação utiliza R$ 1.000 para obter uma exposição muito maior, o investidor precisa saber exatamente o que essa exposição representa.

Não basta olhar para o prêmio.

É preciso compreender:

  • qual é o ativo-objeto;
  • qual é o strike;
  • qual é o vencimento;
  • quanto a opção pode variar;
  • qual é a perda máxima;
  • o que acontece se o cenário esperado não se confirmar;
  • e qual parcela do patrimônio está efetivamente sendo colocada em risco.

Quanto maior a alavancagem, maior deve ser o cuidado com o tamanho da posição.

E onde entra o hedge?

O hedge pode ser visto como o outro lado dessa equação.

Em vez de aumentar a exposição, procuramos reduzir o impacto de uma exposição que já existe.

Possuímos uma posição.

Identificamos um risco.

Utilizamos uma opção para tentar reduzir esse risco.

Pagamos um preço por isso.

E aceitamos esse custo porque consideramos que a proteção vale a pena.

É uma lógica completamente diferente da busca por alavancagem.

As duas estratégias podem até coexistir

E aqui encontramos uma questão interessante.

Um mesmo investidor pode utilizar opções para proteção em determinada parte de sua carteira e, simultaneamente, utilizar uma pequena parcela de seu capital para operações alavancadas.

Não existe contradição necessariamente.

O que importa é que cada operação tenha: objetivo claro + risco conhecido + tamanho adequado.

O erro seria misturar as duas coisas sem perceber.

Uma posição que deveria proteger o patrimônio não pode ser tratada como uma aposta.

E uma posição especulativa alavancada não deve ser confundida com uma estratégia de proteção.

A filosofia do Paciência & Prosperidade

É aqui que começamos a chegar a um dos princípios centrais da nossa proposta de educação financeira.

O objetivo não é ganhar o máximo possível em cada operação.

O objetivo é construir patrimônio ao longo do tempo.

Isso muda tudo.

Se uma operação oferece a possibilidade de ganhar 5%, mas pode produzir uma perda de 50%, talvez não faça sentido.

Se outra oferece um ganho potencial menor, mas apresenta um risco muito mais controlável, pode ser mais interessante.

Não existe uma fórmula universal.

Mas existe um princípio: O patrimônio precisa sobreviver às perdas para poder participar dos ganhos futuros.

Paciência também é uma estratégia

O mercado não precisa ser operado todos os dias.

Não precisamos estar sempre posicionados.

Não precisamos aproveitar toda oportunidade.

Às vezes, a melhor operação é esperar.

Esperar por um preço melhor.

Esperar por uma configuração mais clara.

Esperar por uma relação risco-retorno mais interessante.

Ou simplesmente esperar.

Isso não significa passividade.

Significa disciplina.

E, em um mercado que funciona todos os dias, saber esperar pode ser uma vantagem enorme.

O verdadeiro poder das opções está na combinação

Depois de tudo o que vimos, talvez possamos compreender melhor por que as opções são instrumentos tão interessantes.

Elas podem:

  • proteger;
  • gerar exposição;
  • limitar riscos;
  • ampliar exposição;
  • combinar posições;
  • criar diferentes relações entre risco e retorno.

Mas nenhuma dessas características é automaticamente boa ou ruim.

Tudo depende de como são utilizadas.

A opção é uma ferramenta.

Quem decide o risco é a estratégia.

E quem decide quanto desse risco será assumido é o investidor.

Antes de multiplicar, precisamos preservar

Existe uma ordem lógica que considero fundamental: primeiro preservar; depois multiplicar.

Não adianta buscar retornos extraordinários se uma única operação pode destruir uma parcela significativa do patrimônio.

Não adianta procurar a operação perfeita se não existe controle sobre o tamanho das posições.

Também não adianta acertar dez operações se a décima primeira for capaz de apagar todo o resultado anterior.

O patrimônio é construído com tempo.

E o tempo é um dos maiores aliados do investidor.

Mas, para aproveitar o tempo, precisamos permanecer no jogo.

Afinal, por que usar opções?

Depois de percorrermos todos esses conceitos, podemos finalmente responder à pergunta que deu origem a este artigo.

Por que usar opções?

Porque elas permitem construir estratégias que seriam muito mais difíceis de realizar utilizando apenas a compra e a venda tradicional de ações.

Entre suas principais possibilidades estão:

  • proteger uma carteira contra movimentos adversos;
  • administrar determinados riscos;
  • buscar exposição maior ao comportamento de um ativo utilizando menos capital;
  • montar estratégias com diferentes relações entre risco e retorno.

A própria B3 destaca justamente essas duas grandes funções: as opções podem ser utilizadas para mitigar riscos de oscilação de preços e também para criar estratégias especulativas, ampliando a exposição e o potencial de retorno com um investimento inicial relativamente menor.

Mas existe uma conclusão ainda mais importante:

A mesma característica que torna as opções poderosas também pode torná-las perigosas.

Hedge: quando proteger é mais importante do que ganhar

O hedge representa a utilização das opções com uma finalidade bastante diferente daquela associada à especulação.

O objetivo não é necessariamente ganhar dinheiro com a opção, é reduzir o impacto de um evento desfavorável sobre uma posição maior.

Foi exatamente isso que vimos no exemplo da Put.

O investidor possuía as ações e comprou uma Put para estabelecer uma proteção contra uma possível queda.

Se a queda acontecesse, a Put poderia ajudar a reduzir o impacto.

Porém, se a queda não acontecesse, o prêmio pago pela Put representaria o custo da proteção.

Essa é uma característica fundamental do hedge.

O investidor aceita conscientemente um custo para reduzir determinado risco.

No exemplo utilizado neste artigo, o hedger paga o prêmio justamente para transferir parte do risco de uma queda para outra parte do mercado.

Alavancagem: quando menos capital significa maior exposição

Do outro lado temos a alavancagem.

Nesse caso, a lógica é diferente.

O investidor utiliza uma quantidade relativamente pequena de capital para obter exposição a um valor maior de determinado ativo.

Imagine novamente uma ação cotada a R$ 60,00.

Para comprar 100 ações, seriam necessários:

100 × R$ 60,00 = R$ 6.000,00.

Uma Call sobre essas mesmas 100 ações poderia custar, por exemplo, R$ 200,00.

O capital empregado seria muito menor.

Se a ação se movimentar de maneira favorável, a valorização percentual da opção poderá ser muito superior à valorização percentual da própria ação.

Este artigo apresenta exatamente esse contraste: um investimento de R$ 6.000,00 diretamente nas ações contra R$ 200,00 em uma Call, mostrando como uma movimentação favorável pode produzir uma rentabilidade percentual muito maior na opção.

É esse mecanismo que torna a alavancagem tão atraente.

E também tão perigosa.

O outro lado da alavancagem

Não existe alavancagem somente para o lado positivo.

Se o cenário esperado não acontecer, a mesma característica que potencializa o ganho pode potencializar a perda.

No caso de uma opção comprada, existe ainda a possibilidade de o contrato chegar ao vencimento sem valor econômico.

Nesse caso, o comprador poderá perder integralmente o prêmio pago.

No exemplo original, os R$ 200,00 utilizados na compra da Call poderiam simplesmente desaparecer caso a ação não apresentasse o comportamento necessário até o vencimento.

É por isso que precisamos abandonar a ideia de que opções são simplesmente uma maneira de “ganhar mais”.

Elas são uma maneira de alterar a relação entre capital empregado, exposição, risco e potencial retorno.

Essa é uma descrição muito mais precisa.

O verdadeiro perigo está em não conhecer a operação

Uma opção não é perigosa simplesmente porque é uma opção.

O perigo aparece quando o investidor entra em uma operação sem compreender suas características.

Antes de realizar qualquer operação, é necessário saber:

Qual é o meu objetivo?

Quero proteção?

Quero especulação?

Quero aumentar minha exposição?

Quero limitar uma perda?

Quero montar uma estrutura?

E depois:

Quanto posso perder?

Quando essa perda pode acontecer?

Qual é o prazo da operação?

O que acontecerá se o mercado fizer exatamente o contrário do que estou esperando?

Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente descobrir quanto podemos ganhar.

O tamanho da operação importa tanto quanto a estratégia

Uma estratégia pode ser tecnicamente muito bem elaborada e ainda assim ser inadequada se o tamanho da posição for excessivo.

Imagine que um investidor tenha R$ 100.000 de patrimônio.

Se ele utiliza uma pequena parcela desse capital em uma operação de maior risco, uma perda poderá ser absorvida sem comprometer significativamente sua estrutura patrimonial.

Mas, se utilizar praticamente todo o patrimônio em uma única operação, qualquer erro poderá produzir consequências muito maiores.

Por isso, gerenciamento de risco não é um detalhe da estratégia. É parte da própria estratégia.

E essa é uma das razões pelas quais o investidor precisa aprender primeiro e operar depois.

Não coloque dinheiro onde você ainda não entende o risco

Essa talvez seja a recomendação mais simples de todo este artigo.

Se você ainda não consegue explicar, com suas próprias palavras:

  • o que é uma Call;
  • o que é uma Put;
  • o que é strike;
  • o que é prêmio;
  • o que acontece no vencimento;
  • qual é sua perda máxima;
  • e qual é o comportamento da posição em diferentes cenários, então ainda não está pronto para colocar dinheiro nessa operação.

Não há vergonha alguma nisso.

Muito pelo contrário.

Reconhecer que ainda não conhece suficientemente uma ferramenta é sinal de maturidade financeira.

O mercado continuará existindo amanhã.

E depois de amanhã.

Não existe necessidade de correr.

Começar pequeno também faz parte do aprendizado

Mesmo depois de compreender os conceitos, existe uma diferença entre entender uma operação no papel e vivenciar uma operação com dinheiro real.

Quando o dinheiro está em jogo, emoções aparecem.

Medo.

Ansiedade.

Ganância.

Euforia.

Arrependimento.

Por isso, operações pequenas podem ser uma forma de conhecer o próprio comportamento diante das oscilações do mercado.

Este artigo apresenta justamente essa preocupação ao recomendar que o investidor opere com pouco dinheiro enquanto adquire experiência.

A ideia é simples:

primeiro aprender a caminhar; depois pensar em correr.

O patrimônio vem antes da operação

Existe uma filosofia que atravessa todo o projeto Paciência & Prosperidade: o objetivo não é simplesmente ganhar dinheiro no mercado.

É construir patrimônio.

Essa diferença é enorme.

Quem pensa apenas na próxima operação tende a se concentrar no resultado imediato.

Mas quem pensa na construção patrimonial precisa considerar o que acontecerá depois de cem, quinhentas ou mil operações.

Uma perda pequena pode ser apenas parte natural do processo.

Porém, uma perda gigantesca pode comprometer anos de trabalho.

Por isso, preservar o capital não é falta de ambição.

É uma condição para permanecer no mercado durante tempo suficiente para aproveitar as oportunidades que ainda virão.

O mercado não precisa ser operado todos os dias

Existe ainda uma regra que considero particularmente importante:

Não operar também significa operar.

Nem sempre haverá uma oportunidade que justifique assumir risco.

Pode acontecer de o mercado estar confuso.

Ou do prêmio não compensar.

Pode acontecer de a relação entre risco e retorno não ser interessante.

Ou ainda pode acontecer de simplesmente não encontrarmos uma operação que esteja de acordo com nosso planejamento.

Nesse momento, ficar de fora não significa perder uma oportunidade.

Significa recusar uma operação que não atende aos nossos critérios.

E isso também é disciplina.

Amanhã haverá novas oportunidades

Uma das maiores dificuldades de quem começa a operar é aceitar que uma oportunidade pode ser perdida.

O investidor vê uma ação subir e pensa: “Eu deveria ter comprado.”

Vê uma opção disparar e pensa: “Poderia ter ganhado muito dinheiro.”

Mas esse tipo de pensamento pode levar a decisões ruins.

O mercado não oferece apenas uma oportunidade.

Ele oferece oportunidades continuamente.

Se uma operação não aconteceu hoje, outra poderá aparecer amanhã.

E se uma operação deu errado, outra surgirá.

O importante é não transformar uma perda em uma obrigação de recuperar dinheiro imediatamente.

Perder faz parte. Perder demais não precisa acontecer.

Essa é provavelmente uma das frases que melhor resume nossa visão sobre o mercado de opções.

As perdas fazem parte.

Não existe estratégia capaz de garantir que todas as operações terminarão com lucro.

Mas isso não significa que toda perda precise ser grande.

O investidor pode trabalhar para que as perdas sejam pequenas o suficiente para que os ganhos futuros consigam compensá-las.

É a lógica por trás da conhecida frase: “Ganhar de balde e perder de colherinha.”

Não precisamos vencer todas as vezes.

Precisamos evitar que uma derrota seja capaz de destruir todo o trabalho anterior.

O verdadeiro poder das opções está na flexibilidade

Depois de estudar Calls, Puts, hedge e alavancagem, podemos perceber que as opções são muito mais do que simples instrumentos para apostar na alta ou na queda de uma ação.

Elas permitem criar estruturas, proteger posições, assumir determinados riscos ou limitar outros.

Permitem modificar a relação entre capital empregado e exposição.

E também permitem construir estratégias adaptadas a diferentes cenários.

Essa flexibilidade é justamente o que torna o mercado de opções tão interessante.

Mas também é o que exige estudo.

Quanto maior o número de possibilidades, maior a necessidade de compreender o que está sendo feito.

Hedge e alavancagem: duas ferramentas, uma responsabilidade

Podemos resumir todo este artigo da seguinte maneira:

HedgeAlavancagem
Busca proteçãoBusca maior exposição
Procura reduzir determinado riscoAceita maior risco em busca de retorno
Pode ter um custo conhecido, como o prêmioPode produzir grandes ganhos ou perdas percentuais
É associado ao gerenciamento de riscoExige atenção redobrada ao gerenciamento de risco
Protege uma posição existentePode criar uma exposição com menor capital

Nenhuma das duas estratégias é automaticamente melhor.

A escolha depende do objetivo, do conhecimento, da estrutura da operação e do risco que o investidor está disposto a assumir.

O importante é saber exatamente o que está fazendo antes de fazer.

O conhecimento vem antes do dinheiro

Se existe uma mensagem que gostaria que você levasse deste artigo, é esta: Não opere opções simplesmente porque alguém mostrou uma operação que deu muito dinheiro.

Estude.

Entenda.

Faça as contas.

Simule os cenários.

Descubra quanto pode perder.

E somente depois decida se aquela operação faz sentido para você.

O mercado não recompensa a pressa.

Ele recompensa, ao longo do tempo, aqueles que conseguem combinar conhecimento, disciplina e controle de risco.

Conclusão: opções podem proteger ou potencializar, mas exigem responsabilidade

As opções são instrumentos extremamente versáteis.

Podem ser utilizadas para proteção, por meio de estratégias de hedge.

Também podem ser utilizadas para alavancagem, permitindo uma exposição maior ao comportamento de determinado ativo com um capital inicial menor.

Podem, inclusive, ser utilizadas em inúmeras outras estruturas.

Mas existe uma característica que nunca deve ser esquecida: opções não eliminam o risco. Elas permitem que o investidor o organize de maneiras diferentes.

No hedge, você paga para reduzir determinado risco.

Na alavancagem, você aceita maior exposição em busca de um potencial retorno maior sobre o capital empregado.

Em ambos os casos, conhecimento e gerenciamento de risco são indispensáveis.

E existe uma regra que vale não apenas para as opções, mas para praticamente qualquer investimento: Não coloque seu dinheiro em algo que você ainda não compreende.

O objetivo não é encontrar uma operação que sempre dê certo.

Isso não existe.

O objetivo é construir uma maneira de investir que permita enfrentar as operações que dão errado sem comprometer o patrimônio.

Porque o mercado continuará oferecendo oportunidades.

Amanhã.

Depois de amanhã.

No próximo mês.

E daqui a muitos anos.

Paciência também é uma posição.

Leitura recomendada

Se você chegou até aqui, já compreendeu duas das principais utilidades das opções: proteção e alavancagem.

Mas ainda há muito a aprender antes de pensar em utilizar esses instrumentos.

Para continuar sua jornada, recomendo a leitura dos próximos conteúdos desta série:

1. O que são opções? Entenda como funcionam Call, Put, Strike e Prêmio.

Antes de estudar estratégias, é fundamental dominar a estrutura básica de uma opção: o que são Call e Put, o significado de strike, o que é o prêmio e como funciona o vencimento.

2. Call e Put: entenda as duas faces das opções e como elas funcionam.

Neste artigo, aprofundamos o funcionamento das duas principais modalidades de opções e mostramos por que Call e Put são, de certa maneira, as duas faces de uma mesma moeda.

A sequência dos artigos foi pensada para que o conhecimento seja construído gradualmente.

Primeiro compreender. Depois analisar. Só então operar.

Aviso importante

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e informativa.

Ele não constitui recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros.

Antes de investir, faça sua própria análise e, se necessário, consulte um profissional habilitado.

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