O mercado brasileiro começa esta terça-feira depois de uma sessão excepcional: o Ibovespa saltou 7,7%, para 206.912 pontos, enquanto o dólar caiu cerca de 4%, para a região de R$ 5,00. O movimento refletiu principalmente a reprecificação do risco doméstico após o primeiro turno das eleições — e não uma mudança equivalente no cenário internacional. Reuters
Hoje, a questão é diferente: quanto desse movimento se sustenta depois da reação inicial?
🌎 Exterior: bolsas sobem, mas Treasuries continuam pressionando
As bolsas asiáticas avançam nesta manhã acompanhando Wall Street, onde o Nasdaq renovou máxima histórica na segunda-feira. O movimento acionário continua sustentado principalmente pelo setor de tecnologia. Reuters
O contraponto permanece no mercado de títulos.
O Treasury americano de 10 anos chegou a 5,35%, maior nível em 24 anos. O mercado reduziu para cerca de 23% a probabilidade de nova alta do Fed em outubro depois do payroll fraco, mas os juros longos continuam pressionados por inflação e preocupações fiscais. Reuters
Aqui está o sinal importante:
Fed menos agressivo → favorável aos ativos de risco.
Treasuries longos ainda subindo → condições financeiras globais continuam apertadas.
Por enquanto, o segundo fator impede uma leitura francamente positiva do exterior.
🇺🇸 Inflação volta ao radar
O setor de serviços americano desacelerou em setembro, mas o componente de preços pagos atingiu o maior nível em mais de quatro anos, influenciado também pelo custo da energia. Reuters
Isso explica por que o payroll fraco não encerrou a discussão sobre juros.
Emprego desacelerando reduz a pressão sobre o Fed; inflação resistente limita o espaço para flexibilização.
Portanto, apostar em uma mudança rápida da política monetária americana com base apenas no emprego seria ruído. A evolução conjunta de emprego e inflação é o sinal.
💱 Dólar
O dólar permanece forte internacionalmente, com seu índice próximo de 102,2 pontos, sustentado pelos Treasuries elevados e pela fraqueza do euro. A moeda europeia está perto da mínima de 17 meses, pressionada principalmente pelas preocupações fiscais francesas e pela instabilidade política na Europa. Reuters
Isso torna o comportamento do real particularmente interessante.
Ontem, a moeda brasileira se valorizou fortemente mesmo diante de um dólar globalmente forte. Foi, portanto, um movimento claramente doméstico.
Se essa divergência continuar, teremos mais evidência de redução do prêmio de risco Brasil.
🛢️ Petróleo: abaixo de US$ 100
O Brent recua cerca de 0,8% nesta manhã, para aproximadamente US$ 99,50, enquanto o WTI está próximo de US$ 88,40. Reuters
A recuperação das exportações do Oriente Médio e a liberação de 100 milhões de barris das reservas do G7 reduziram o temor imediato de escassez. Os riscos geopolíticos, entretanto, permanecem devido aos ataques na região do Golfo. Reuters
Petróleo abaixo de US$ 100 é alívio para a inflação global. Ataques e ameaças continuam sendo ruído enquanto não alterarem materialmente oferta, transporte ou infraestrutura.
🇨🇳 China e minério
A China continental permanece fechada pelo feriado da Golden Week. Consequentemente, há pouca formação nova de preços e nenhum sinal suficientemente relevante vindo do minério nesta manhã.
Para a B3, China/minério permanecem neutros.
🇧🇷 Brasil: depois da euforia, começa o teste
O movimento de ontem foi inequívoco: Bolsa, câmbio e juros reagiram simultaneamente ao resultado eleitoral.
O Ibovespa avançou 7,7%, o real teve sua maior valorização diária em quatro anos e os juros futuros longos chegaram a cair mais de 1 ponto percentual. Reuters
Essa combinação é importante porque confirma que não houve apenas compra de ações: o mercado reduziu o prêmio exigido para carregar risco brasileiro.
Mas nada mudou ainda nos fundamentos fiscais.
A reação refletiu uma nova percepção sobre as probabilidades do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva e sobre a composição do Congresso. Reuters
A partir de agora, pesquisas, alianças e principalmente propostas econômicas e sinais sobre política fiscal poderão mexer novamente com esses preços.
Oscilações provocadas por declarações eleitorais isoladas serão predominantemente ruído. Mudanças capazes de alterar expectativas para dívida, gastos, reformas ou trajetória fiscal serão sinal.
🇧🇷 Selic, inflação e fiscal
O Focus divulgado ontem elevou a projeção do IPCA de 2026 para 5,01%, novamente acima do teto da meta, enquanto a expectativa para a Selic no fim do ano permanece em 13,5%. Folha de S.Paulo
Isso coloca um limite na interpretação otimista de ontem.
Se a queda da curva de juros e a valorização do real persistirem, as condições financeiras domésticas melhoram. Mas o Copom continuará olhando inflação e fiscal antes de acelerar qualquer flexibilização monetária.
Painel da manhã
| Vetor | Leitura para o Ibovespa |
| Bolsas internacionais | Favorável |
| Fed | Neutro/Favorável |
| Treasuries | Desfavorável |
| Dólar global | Desfavorável |
| Petróleo | Favorável |
| China/minério | Neutro |
| Geopolítica | Desfavorável |
| Selic/Copom | Neutro |
| Inflação brasileira | Desfavorável |
| Fiscal brasileiro | Neutro/Desfavorável |
| Reprecificação eleitoral | Favorável |
| Real e curva de juros | Favorável, a confirmar |
Leitura final: ontem foi o dia da reprecificação. Hoje começa o teste de consistência. No exterior, bolsas fortes ajudam, mas Treasuries em máximas de décadas continuam sendo o principal obstáculo. No Brasil, real e curva de juros serão novamente os melhores termômetros para saber se a redução do prêmio de risco continuará ou se parte da reação de ontem será devolvida.
Radar P&P — informação para compreender, não para prever.
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